Custo de frete fracionado: o que a tabela não mostra

Resumo executivo
O custo do frete fracionado interestadual vai além da tabela. Mauro Favoretto, CEO da Kargu, revela o que o mercado ignora e como agir.
Você fecha um contrato com uma transportadora, negocia a tabela, aprova o orçamento e sente que fez um bom trabalho. Três meses depois, o custo real de frete por pedido está acima do previsto. O time financeiro questiona. Você pede uma explicação para a operação. A operação culpa o volume. O volume culpa o mix. E o ciclo recomeça.
Esse padrão é mais comum do que parece. E ele tem uma causa específica, que a maioria dos gestores de logística não quer ouvir porque implica rever decisões já tomadas: a tabela de frete fracionado interestadual não mede o que você precisa medir.
A tese que defendo: o contrato de frete não é o problema, o modelo de custeio é
O que eu defendo é o seguinte: a maioria das empresas que reclama de custo de frete fracionado alto está usando a métrica errada para avaliar o problema. Elas olham o valor por kg, o valor por nota, o percentual sobre o NF. Mas nenhuma dessas métricas captura o custo logístico real de uma rota ao longo do tempo.
O custo logístico real inclui o que não está na tabela: o tempo de coleta que atrasa o despacho, a transferência no centro de distribuição intermediário que adiciona um dia ao prazo, a cobrança de gris, o frete mínimo aplicado nos volumes abaixo do corte, e o reentrega que virou padrão em certas regiões. Quando você soma tudo isso e divide pelo volume entregue com SLA cumprido, o número que aparece raramente é o que estava no contrato.
O que a lógica da tabela esconde por design
A tabela de frete fracionado é construída para ser vendida, não para ser gerenciada. Ela é clara nos itens que parecem mais baratos e opaca nos acessórios que compensam a margem do transportador. Isso não é desonestidade: é estrutura de mercado.
Por que os acessórios crescem conforme o volume
Um erro frequente é negociar bem a taxa base e ignorar os acessórios porque eles parecem pequenos. Mas acessórios como gris, ad valorem e taxa de coleta especial são calculados sobre o valor da NF ou sobre o peso. Quanto maior o seu volume e o valor dos produtos, mais esses itens pesam na conta total. A empresa que fatura R$ 5M/ano e despacha produtos de médio valor já sente esse efeito. A que fatura R$ 50M/ano, com produtos de alto valor agregado, pode estar pagando uma fração relevante do custo total só em acessórios que nunca foram negociados.
Discordo de quem diz que basta renegociar os acessórios na renovação do contrato. O problema não é de negociação: é de visibilidade. Você não consegue negociar o que não enxerga linha a linha, rota a rota, mês a mês.
O ponto de transferência que virou custo invisível
Outra camada que o mercado subestima é o impacto do redespacho. Muitas rotas interestaduais passam por um hub intermediário antes de chegar ao destino final. Esse ponto de transferência adiciona tempo ao trânsito, aumenta o risco de avaria e, em alguns modelos tarifários, gera uma cobrança adicional que aparece como "frete complementar" na NF do transportador.
O que só quem opera esse problema no dia a dia percebe: o ponto de transferência é onde o prazo prometido morre. A janela de coleta no hub intermediário não está no contrato. Ela é uma variável operacional da transportadora, e o seu pedido vai esperar a consolidação dela, não o compromisso que foi assinado. Entender como o ponto de transferência eleva o custo é o primeiro passo para montar uma malha de rotas que realmente funcione.
A falácia do frete mínimo como proteção
Existe uma crença no setor de que o frete mínimo protege a transportadora dos envios muito pequenos e, por isso, não afeta quem despacha volume razoável. Na prática, é o contrário.
O frete mínimo afeta diretamente quem tem um mix de pedidos heterogêneo: alguns envios pesados, alguns leves, alguns com volumes abaixo do corte. É o caso de qualquer distribuidor ou e-commerce que não controla o tamanho médio do pedido com precisão. E ninguém controla isso perfeitamente.
Pense assim: o frete mínimo funciona como o consumo mínimo de um restaurante. Você pode pedir só uma entrada, mas vai pagar pelo prato principal de qualquer forma. Se a sua operação tem pedidos que frequentemente caem abaixo do mínimo, você está pagando por capacidade que não usa, toda semana, em todas as rotas onde isso acontece. Multiplicado pelo número de cidades atendidas, o número é relevante.
O contra-argumento mais comum aqui é: "mas eu consolido os pedidos para evitar isso". Consolida mesmo? Em todas as rotas? Com qual frequência de despacho? Consolidação exige disciplina operacional e muitas vezes conflita com o prazo que o cliente quer. Quando há tensão entre consolidar e cumprir prazo, a operação escolhe o prazo e paga o frete mínimo sem registrar como decisão de custo.
O que o mercado não vê: o custo do prazo não cumprido
Existe uma dimensão do custo logístico que não aparece em nenhuma tabela de frete e que poucos gestores conseguem medir com precisão: o custo do prazo que não foi cumprido.
Quando o frete chega fora do prazo prometido ao cliente final, há um custo de atendimento, eventualmente um reenvio, uma perda de recorrência ou uma multa contratual em B2B. Esse custo é registrado em outro centro de custo: SAC, devoluções, multas. Ele nunca aparece no relatório de custo logístico. Por isso, a análise de custo de frete que a maioria das empresas faz é estruturalmente incompleta: ela mede o que foi pago ao transportador, mas ignora o que foi pago ao cliente por conta do transporte.
O que eu defendo é que custo logístico real é a soma dos dois. E quando você inclui o custo do prazo não cumprido na equação, a decisão de escolher a opção mais barata na tabela frequentemente se inverte. O frete que custa menos por kg pode custar mais por pedido entregue dentro do SLA.
Esse é o ângulo que a malha multimodal com lógica de horário fixo resolve de forma estrutural: ao usar saídas programadas e transit time previsível, você passa a ter um custo logístico que inclui o prazo como variável garantida, não como esperança.
Por onde começar: o diagnóstico que precede qualquer renegociação
A recomendação prática que eu dou para qualquer gestor que está insatisfeito com o custo de frete fracionado interestadual é: antes de renegociar, meça. Monte uma curva ABC de rotas com custo real, não custo contratual. Inclua os acessórios, o frete mínimo aplicado e o custo das entregas fora do prazo que geraram atendimento.
Depois de montar esse mapa, você vai perceber que provavelmente entre 60% e 70% do custo se concentra em um conjunto pequeno de rotas. São essas rotas que merecem atenção prioritária, seja por renegociação, seja por troca de modal, seja por consolidação com frequência diferente. Sem esse mapa, qualquer renegociação é um chute que pode melhorar ou piorar a conta.
O passo seguinte é entender como a precificação do frete fracionado interestadual funciona de verdade, porque só assim você negocia com informação, não com percepção.
Custo de frete não é um problema de tabela. É um problema de modelo.
Enquanto o mercado continuar tratando custo de frete como uma questão de negociação de tabela, vai continuar tomando a decisão errada na hora errada. O custo logístico interestadual real está na estrutura do modelo: quantos pontos de transferência a rota tem, qual o lead time de coleta, qual o desempenho de prazo por corredor, e qual o custo do acessório sobre o mix que você realmente despacha.
Quem entende isso deixa de competir por centavos no campo errado e passa a construir uma operação que entrega mais com menos. Se você quer entender como isso funciona na prática, a Kargu pode mostrar um diagnóstico real de rotas, sem compromisso.
Perguntas frequentes
O frete mínimo afeta quem despacha volume alto? Sim. O frete mínimo afeta qualquer operação com mix heterogêneo de pedidos. Pedidos abaixo do peso de corte geram custo por unidade bem acima do esperado, independentemente do volume total mensal despachado.
Como calcular o custo logístico real de uma rota? Some o valor pago ao transportador, todos os acessórios aplicados e o custo interno gerado por entregas fora do prazo naquela rota. Divida pelo número de pedidos entregues dentro do SLA. Esse é o custo real por entrega bem-sucedida.
Vale renegociar a tabela de frete sem antes fazer um diagnóstico de rotas? Raramente. Renegociar sem dados leva a ganhos pontuais que somem no próximo ciclo. O diagnóstico por rota revela onde o custo realmente está e qual alavanca tem mais impacto antes de qualquer conversa com o transportador.
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