Carga fracionada: como montar a curva ABC de rotas

Você fecha o mês, olha o relatório de frete e sabe que o número está alto. Mas quando alguém pergunta quais rotas estão puxando o custo, a resposta honesta é: "não sei ao certo". Isso é mais comum do que parece. A maioria das operações interestaduais com carga fracionada controla o gasto total, mas não enxerga onde, exatamente, o dinheiro escorre.
O resultado prático é negociação fraca. Sem saber quais corredores concentram volume e receita, você chega à mesa do transportador sem argumento. E o transportador sabe disso.
A curva ABC de rotas é o mapa que falta nessa negociação. Ela organiza seus corredores de entrega por volume de embarques, peso faturado e custo gerado, revelando quais pares de origem e destino merecem contrato dedicado, quais pedem modal alternativo e quais deveriam ser eliminados ou consolidados. Com esse recorte em mãos, o gestor de logística para de apagar incêndio e começa a tomar decisão com dado.
Por que a maioria das operações ignora esse recorte
O problema começa no dado. Muitos ERPs registram o custo de frete por nota fiscal, não por corredor. Você sabe quanto gastou no mês, mas não quanto custou levar carga de São Paulo para Belém versus São Paulo para Goiânia. Quando o dado existe, está espalhado em planilhas de transportadoras diferentes, com critérios de zoneamento que variam de uma para outra, o que torna a comparação trabalhosa.
O que vejo acontecer com frequência é o seguinte: a operação cresce, novas rotas são abertas por necessidade comercial, e o setor logístico vai empilhando corredores sem parar para avaliar quais deles se sustentam. Três anos depois, há dezenas de pares origem-destino ativos, dos quais talvez um terço concentra a maior parte do volume. O restante é fragmentado, caro e subutilizado.
Esse comportamento tem custo duplo. Primeiro, o custo direto de frete nas rotas de baixo volume, que raramente têm frequência de saída adequada e pagam tarifa mínima com mais frequência. Segundo, o custo de oportunidade: o gestor gasta energia negociando tabela para rota secundária em vez de blindar o corredor principal. Se quiser entender como o critério de zoneamento distorce ainda mais essa conta, vale ler como o critério de zoneamento distorce o custo do frete fracionado.
Como montar a curva ABC de rotas na prática
O processo não é complexo, mas exige disciplina de dados por pelo menos 90 dias antes de qualquer conclusão.
O que extrair do seu histórico
Para cada embarque do período, você precisa de quatro campos:
- Par origem-destino (cidade ou UF, dependendo da granularidade que seu volume permite)
- Peso ou cubagem embarcada
- Valor de frete pago (sem rateio de custo de produto, só o frete em si)
- Transit time realizado, não o prometido
Com esses quatro campos, você consegue calcular o custo por quilo por corredor e o desvio entre prazo prometido e prazo cumprido. Esses dois indicadores juntos mostram onde o transportador entrega valor e onde ele só entrega nota fiscal.
Como classificar os corredores
A lógica ABC funciona assim:
- Classe A: corredores que concentram a maior parte do volume e do gasto (geralmente um grupo pequeno de pares). São candidatos a contrato dedicado, SLA formal e negociação de tabela por volume.
- Classe B: corredores com volume médio, frequência irregular. Merecem atenção, mas ainda podem ser resolvidos com consolidação de carga ou frequência semanal combinada.
- Classe C: corredores de baixo volume, alta variação de custo e prazo imprevisível. Aqui é onde se esconde boa parte do desperdício. A pergunta certa para cada rota classe C é: "esse corredor existe por necessidade do cliente ou por inércia operacional?"
Um exemplo genérico que ilustra bem: uma distribuidora de material elétrico no interior de Minas Gerais tinha 47 corredores ativos. Quando mapeou a curva, descobriu que 8 deles respondiam pela maior parte dos embarques. Os outros 39 somados representavam pouco volume e custo desproporcional por não terem frequência suficiente para diluir tarifa mínima. A revisão desse portfólio de rotas liberou margem para negociar tabela nos oito corredores principais com muito mais argumento.
O que fazer com cada classe depois do mapeamento
Ter a curva pronta não resolve nada se ela ficar no PowerPoint da reunião mensal. O valor está na ação por classe.
Rotas classe A: aqui você negocia com dado na mão
Para os corredores que concentram volume, você tem poder de barganha real. Use o histórico de peso embarcado por período para propor contrato com volume mínimo garantido em troca de tabela travada. Esse tipo de acordo protege você da volatilidade de tabela e protege o transportador da incerteza de demanda. Os dois ganham previsibilidade.
Além da negociação de tabela, rotas classe A merecem atenção para o modal usado. Em corredores interestaduais de médio e longo prazo, a malha multimodal que combina ônibus e caminhão frequentemente entrega prazo D+1 a D+4 com custo menor do que o rodoviário tradicional, aproveitando capacidade ociosa já em operação. Se sua rota classe A ainda usa só caminhão dedicado, vale comparar.
Rotas classe B: consolidação resolve mais do que negociação
Para corredores de volume médio com frequência irregular, o caminho não é necessariamente trocar de transportador. É consolidar embarques em janelas fixas, reduzindo o número de saídas e aumentando o peso médio por viagem. Isso reduz o impacto da tarifa mínima e melhora o poder de negociação ao longo do tempo, à medida que o volume cresce.
Rotas classe C: corte ou redesenho
Aqui a decisão é dura, mas necessária. Para cada rota classe C, avalie:
- Existe cliente ativo nessa praça que justifica o corredor?
- O volume tem chance de crescer nos próximos dois trimestres?
- Existe rota alternativa via redespacho que seja mais barata que a rota direta atual?
Se as três respostas forem negativas, o corredor pode ser encerrado ou migrado para uma operação spot sem contrato. Manter tabela ativa para rota sem volume é custoso e distrai a equipe.
O que muda quando você opera com visibilidade de corredor
Quando a operação passa a enxergar o custo por corredor, três coisas mudam na prática.
Primeiro, a negociação com transportadoras fica mais objetiva. Você sai de "quero um desconto na tabela geral" para "neste corredor específico embarco X toneladas por mês, quero tabela dedicada". Isso é uma conversa completamente diferente.
Segundo, o planejamento comercial muda. O time de vendas passa a ter visibilidade de quais regiões têm custo de entrega competitivo e quais ainda não têm. Isso afeta onde faz sentido crescer e onde o custo logístico vai corroer a margem antes mesmo de o pedido ser faturado.
Terceiro, o SLA fica auditável. Com dados por corredor, você consegue medir transit time real contra prometido e identificar qual transportador está performando em qual rota. Esse dado é o argumento para cobrar ou substituir, e é o mesmo dado que sustenta qualquer documentação formal de SLA no contrato de frete.
O que fazer agora
Se você ainda não tem a curva ABC de rotas montada, o primeiro passo é extrair 90 dias de histórico do seu TMS ou ERP com os quatro campos mencionados acima. Se o dado não estiver limpo, comece pelo corredor principal, aquele que você sabe de cabeça que é o maior. Mapeie só ele com precisão e use como piloto do processo.
O segundo passo é levar esse dado para a próxima negociação com transportador. Não espere a renovação anual de tabela. A curva ABC de rotas é um argumento que funciona em qualquer momento do ano, porque ela fala de volume real, não de projeção.
Se você quer entender como uma plataforma de logística B2B pode orquestrar esses corredores com rastreamento em tempo real e integração direta ao seu ERP, conheça como a Kargu opera essa malha na prática.
Perguntas frequentes
Com quantos meses de dados é possível montar uma curva ABC de rotas confiável? Noventa dias é o mínimo para capturar variações de demanda sem distorção de sazonalidade pontual. Se sua operação tem pico claro em algum mês, inclua esse período para que a curva reflita o comportamento real da demanda.
A curva ABC de rotas funciona para operações com muitos SKUs de peso e cubagem diferentes? Sim, mas o campo de referência deve ser o peso faturado ou a cubagem, não o número de notas fiscais. Notas de baixo peso distorcem a leitura se forem contadas igualmente. Use peso ou receita de frete como critério de ordenação.
Faz sentido refazer a curva todo mês? Não é necessário. Trimestralmente já captura mudanças relevantes de volume por corredor. O importante é revisitar a classificação antes de qualquer negociação de tabela e sempre que o mix de clientes mudar de forma significativa.
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Escrito por Mauro Favoretto
Bacharel em Física pela USP, foi Engenheiro de Software no Citibank e CEO de Tecnologia no Grupo Itapemirim, onde operou logística de encomendas nos bagageiros de ônibus com a ITEX. Fundou a Kargu para escalar esse modelo com tecnologia.
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