Frete fracionado: como ler a tabela de frete certa
Saber ler uma tabela de frete fracionado evita surpresas na fatura. Entenda o que cada campo significa e como comparar transportadoras de verdade.
CEO & Founder da Kargu
Você recebe a proposta da transportadora, abre o PDF com a tabela de frete e... olha para aquele grid de linhas e colunas como se fosse um mapa sem legenda. Faixa de peso, peso cubado, excesso de dimensão, taxa de coleta, GRIS, TDA. Cada transportadora usa uma nomenclatura diferente. E no fim do mês, a fatura vem com um valor que não bate com o que você estimou na hora de fechar o contrato.
Isso não é incompetência da sua equipe. É que a tabela de frete fracionado foi projetada para quem já conhece o jogo. Quem não domina a leitura paga mais do que deveria, compara ofertas incomparáveis e toma decisão de modal errado por falta de base.
A resposta direta: Uma tabela de frete fracionado tem quatro camadas que precisam ser lidas em sequência: a base de cálculo (peso real ou cubado, o que for maior), a faixa tarifária (quanto custa por kg ou por fração), os adicionais obrigatórios (GRIS, TDA, pedágio, taxa de coleta) e as exceções de praça (rotas onde o preço base não se aplica). Ignorar qualquer uma dessas camadas torna qualquer comparação entre transportadoras inválida.
Por que a base de cálculo decide tudo antes de chegar no preço
A primeira armadilha está na primeira linha da tabela: o peso usado para calcular o frete quase nunca é o peso real da carga. A lógica é simples: transportadora cobra pelo espaço que você ocupa no veículo, não pelos quilos que você pesa na balança.
O peso cubado é calculado multiplicando as dimensões da embalagem (C x L x A, em centímetros) e dividindo pelo fator cúbico da transportadora, que varia. No rodoviário tradicional, o fator mais comum é 300 (em kg/m³). Em operações que usam bagageiro de ônibus, o fator pode ser diferente porque o espaço disponível tem formato e restrições distintos. Se você tem uma caixa leve mas volumosa, o peso cubado vai superar o real, e é esse que entra na tabela.
Praticando: uma caixa de 60x40x40 cm que pesa 8 kg tem peso cubado de aproximadamente 32 kg no fator 300. Você paga por 32 kg. Se você não calculou isso antes de comparar as propostas, a transportadora A pode parecer mais cara no preço por kg real e ser mais barata no preço efetivo. Use a calculadora de cubagem antes de abrir qualquer tabela.
O que é fração mínima e por que ela aparece sempre
Quase toda tabela tem uma fração mínima de cobrança: os primeiros 10 kg, ou os primeiros 5 kg, são cobrados integralmente mesmo que sua carga pese 2 kg. Isso impacta muito quem envia volumes pequenos com frequência alta. Uma carga de 3 kg enviada todos os dias pode custar o dobro do que você projeta se a fração mínima for de 10 kg.
O que vale fazer é mapear o seu perfil de envio: quantos pedidos por semana, qual o peso médio por envio, qual a variação. Com esse dado em mãos, a tabela começa a fazer sentido porque você consegue simular o custo real da sua operação, não o custo teórico.
Adicionais obrigatórios: onde a conta cresce depois do frete base
Entendida a base de cálculo, o segundo passo é somar os adicionais. Esse é o trecho da tabela que mais gera surpresa na fatura porque cada transportadora nomeia e cobra de forma diferente.
Os principais que você vai encontrar:
- GRIS (Gerenciamento de Risco): percentual sobre o valor declarado da nota fiscal, geralmente entre 0,1% e 0,4%. Sobe muito para cargas de alto valor ou rotas com histórico de sinistro.
- TDA (Taxa de Dificuldade de Acesso): cobrada quando o destino final está fora da praça principal do transportador. Interior do Brasil paga mais. Sempre.
- Pedágio: algumas tabelas embarcam o pedágio no frete, outras cobram por fora. Pergunte antes.
- Taxa de coleta: se a transportadora vai até o seu galpão pegar a carga, isso tem custo. Algumas incluem, outras não.
- Ad valorem: diferente do GRIS, é um seguro da carga com cobertura real. Confunda os dois e você pode achar que tem cobertura quando não tem.
O problema não é a existência desses adicionais. O problema é que quando você compara duas tabelas olhando só o frete base, está comparando coisas incomparáveis. Uma distribuidora de autopeças no interior de Minas que atendemos conhecemos bem viveu isso: fechou contrato com a transportadora de frete base menor, mas a TDA para o interior era tão alta que o custo total ficou acima da segunda opção. A diferença só apareceu na terceira fatura.
Como montar a planilha de comparação correta
A forma mais confiável de comparar tabelas é simular três ou quatro pedidos reais da sua operação em cada proposta, somando todos os adicionais. Não use o peso teórico, use o peso real e cubado dos seus pedidos mais frequentes. O resultado vai ser um custo efetivo por entrega que você pode comparar com clareza.
Se você ainda não tem clareza sobre quais custos aparecem na sua operação atual sem que você perceba, o post sobre custos invisíveis no frete fracionado cobre exatamente esse ponto.
Como a praça de destino muda o preço que você leu na tabela
Aqui entra o terceiro nível, que é onde a maioria dos embarcadores se perde. A tabela que você recebeu foi construída para as rotas onde aquela transportadora tem malha própria. Para qualquer destino fora dessa malha, existe um agenciamento: ela repassa para outra transportadora local, e o custo disso entra na sua fatura de uma forma nem sempre transparente.
No rodoviário tradicional, isso se chama redespacho. Você não vê o redespacho explicitamente na tabela. Você vê no prazo (que estica) e no custo (que sobe). A tabela diz D+3, mas o redespacho adiciona dois dias. A tabela diz R$ X por kg, mas o agenciamento adiciona 30% que entra como taxa de destino na fatura.
O interior do Brasil é onde esse efeito é mais brutal. Rotas de São Paulo para capitais têm malha densa e preços previsíveis. Rotas de São Paulo para municípios de 50 mil habitantes no Piauí ou no Mato Grosso do Sul dependem de redes de redespacho que o embarcador não controla e quase não enxerga. É aqui que o transit time de D+3 vira D+8 e a tabela deixa de ser um guia confiável.
Por isso, quando você avalia uma tabela de frete, a pergunta que precisa fazer antes do preço é: qual é a malha própria dessa transportadora? Onde ela usa redespacho? Para uma análise mais aprofundada de como a malha afeta o resultado da sua operação, veja como montar a malha certa de frete fracionado.
O que perguntar antes de assinar qualquer contrato
Uma lista de perguntas que todo gerente de logística deveria fazer ao avaliar uma proposta:
- Qual o fator cúbico usado no cálculo?
- Qual a fração mínima de cobrança?
- O pedágio está incluso ou é cobrado por fora?
- A TDA é fixa ou percentual? Varia por destino?
- Em quais destinos você usa redespacho? Quem é o parceiro?
- O prazo informado conta dias úteis ou corridos?
- Qual o horário de corte para embarque no mesmo dia?
Sem essas respostas, a tabela é um documento incompleto.
O que fazer na prática a partir de agora
Com tudo isso em mente, o primeiro movimento é parar de comparar tabelas pelo frete base e começar a simular custo total por entrega. Pegue os últimos 30 pedidos interestaduais da sua operação, calcule o peso cubado de cada um, some os adicionais que a transportadora atual cobra e você vai ter o custo real por entrega. Esse número é o referência correto.
O segundo movimento é mapear para onde você está enviando versus onde sua transportadora tem malha própria. Destinos que caem em redespacho merecem análise separada: talvez valha mais fechar com um especialista naquela rota do que usar a mesma transportadora para tudo.
Se você opera rotas médias e longas com frequência, especialmente para o interior, entender como a malha multimodal de ônibus interestaduais funciona pode mudar o cálculo. Esses veículos já circulam com horário fixo para mais de 5.500 cidades e carregam carga fracionada no bagageiro sem adicionar veículos à estrada. O custo e o prazo ficam dentro de um SLA previsível que a tabela de frete tradicional raramente consegue garantir para o interior. Conheça como funciona o frete fracionado por ônibus interestadual e simule sua rota.
Tabela de frete não é um documento para assinar sem ler. É um mapa. Aprenda a ler o mapa e você para de ser surpreendido no fim do mês.
Perguntas frequentes
O que é peso cubado no frete fracionado? Peso cubado é o peso calculado com base no volume da embalagem, usando a fórmula C x L x A dividido pelo fator cúbico da transportadora. Quando o peso cubado supera o peso real, a transportadora cobra pelo cubado. Isso afeta cargas leves e volumosas, como embalagens de eletrodomésticos ou itens de decoração.
O que é GRIS no frete e quem paga? GRIS é a taxa de Gerenciamento de Risco, cobrada como percentual sobre o valor da nota fiscal. Quem paga é o embarcador, e ela existe para cobrir o custo operacional de segurança da transportadora na rota. Não é seguro da carga: não garante indenização em caso de sinistro, apenas cobre a gestão de risco da viagem.
Como saber se a transportadora usa redespacho no meu destino? Pergunte diretamente qual é a malha própria da transportadora e em quais municípios ela aciona parceiros locais. Se ela não souber responder com precisão de praça, é um sinal de que o redespacho existe e não está sendo transparente na proposta. Redespacho não declarado é a principal causa de transit time maior que o prometido no interior do Brasil.